Doença fatal na pele de golfinhos está ligada a mudanças climáticas, diz estudo


Larissa Santos, colaboração para a CNN Brasil
29 de dezembro de 2020 às 14:21
Golfinho
Gofinho cabeça-de-garrafa (Tursiops truncatus) é afetado por dermatite causada por mudanças climáticas
Foto: PublicDomainImages/Pixabay


Um estudo feito por pesquisadores americanos e australianos mapeou uma nova doença de pele que tem causado a morte de golfinhos nos Estados Unidos, Austrália e América do Sul. Segundo a pesquisa, animais que foram expostos por longos períodos a ambientes aquáticos de água doce passaram a ter lesões semelhantes a queimaduras na pele, causando a morte dos animais.

Mesmo que golfinhos possam viver por curtos períodos em ambientes de água doce, a exposição longa do animal a um ambiente de baixa salinidade pode causar as lesões. As mudanças climáticas súbitas, como fortes tempestades e furacões podem dessalinizar uma região de água salgada, fazendo com que o habitat natural dos golfinhos se torne nocivo.

De acordo com o artigo “Doença de pele de água doce em golfinhos: uma definição de caso com base na patologia e em fatores ambientais na Austrália” a dermatite causa palidez na pele, erosões e pode evoluir para úlceras que podem atingir até 70% do corpo do cetáceo, com a gravidade de um queimadura de terceiro grau.  

O estudo também detectou que conforme o nível de salinidade da água aumentava, menor a aparição e gravidade das lesões, mostrando uma relação entre a própria água e a dermatite dos golfinhos. A gravidade das lesões levou a infecções por bactérias, fungos e algas marinhas, ampliando o sofrimento e levando à morte de golfinhos.

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O primeiro relato da úlcera cutânea aconteceu em 2005 com golfinhos-nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus) que estavam no lago Pontchartrain no estado da Louisiana (EUA), após a passagem do furacão Katrina. Com a inundação do Rio Mississipi, os animais foram arrastados para o lago e ficaram presos na região.

O trio de pesquisadores Pádraig J. Duignan, do Centro de Mamíferos Marinhos dos Estados Unidos, Nahiid S. Stephens da Universidade Murdoch e Kate Robb da “Fundação Marinho Mamífero”, as duas últimas da Austrália, notaram que relatos como o de 2005 se tornaram mais frequentes com o aumento de eventos climáticos mais intensos nos últimos tempos.

Outro caso mais recente aconteceu em 2017, quando o furacão Harvey inundou a baía de Galveston, no Texas. A forte chuva diminui o nível de salinidade do estuário, de 14 pontos para menos que 1.  Os golfinhos-nariz-de-garrafa que viviam na região foram um dos principais modelos de estudo do “antes, durante e depois” da exposição à água hipossalina. A extensão e profundidade das lesões foram agravadas nos animais que ali viviam.

A espécie de golfinhos-nariz-de-garrafa vive em ambientes costeiros e estuários ao redor do planeta. Desta forma, os animais estão sempre expostos a mudanças feitas pelo homem e pelo ambiente.

Os autores vêm uma relação direta com essa mudança abrupta do habitat destes animais e a alteração do meio ambiente.  Outros dois casos que foram base no estudo foram as fortes chuvas que atingiram os rios Canning e Swan na Austrália Ocidental e no lago Gippsland, em Victoria, também na Austrália. As comunidades de golfinhos da espécie burrunan (Tursiops australis) que vivem nessas duas regiões desenvolveram a dermatite em vários níveis.  

A pesquisadora Nahiid Stephens explica haver uma semelhança grande entre os golfinhos e os seres humanos, e que os cetáceos são importantes termômetros para ameaças que humanos podem ter que lidar também. Essas novas doenças alertam sobre perigos maiores e mais complexos diante da crise climática global.