Brasileiros comem mais frutas e hortaliças, mas mantêm ultraprocessados no prato


Isabella Faria, Da CNN, em São Paulo
16 de outubro de 2020 às 11:05

Francieli, gerente de TI e moradora de São Paulo, nunca gostou de fazer a própria comida, mas depois de passar por um período de adaptação do seu home office e da sua vida em família no início da pandemia, passou a querer levar uma vida mais saudável depois de anos comendo comidas prontas. Ela viu seu peso aumentar e sua saúde decair no primeiro trimestre, resolveu, então, consultar uma nutricionista.

 “Comecei a me exercitar na academia do prédio e passei a cozinhar em casa as receitas que a nutricionista passou, mas claro que nem sempre acerto”, diz, “minha filha já reclamou muito da minha comida, dizendo que estava salgada demais, por exemplo, mas acredito que melhorei...”.

Natasha, filha de Francieli, diz que possuía uma alimentação totalmente desregulada e que embarcou na vida saudável ao lado da mãe: “Agora não passo mais longos períodos sem comer e minha mãe sempre tenta cozinhar algo diferente todos os dias para a família não enjoar”.

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Salada é opção na hora do almoço na casa dos brasileiros

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Foto: CNN Brasil (16.out.2020)

Já Ivonete, dona de casa e moradora de Santo André, em São Paulo, diz que não tem preguiça; sempre cozinhou com o que tinha na dispensa. “Eu gosto de feijão, arroz e peixe e mesmo estando com dificuldades financeiras, nunca comprei comida pronta ou congelada”, diz.

O marido de Ivonete faleceu no fim do ano passado e agora, sem poder trabalhar, ela depende de doações semanais de pessoas próximas para manter uma alimentação saudável dentro de casa. “Nunca precisei pedir nada. Quando as pessoas perceberam que eu estava passando dificuldades, começaram a me dar cestas básicas”, diz, “na minha primeira doação veio carne vermelha, arroz, feijão, azeite, manteiga... Tudo muito fresco, e, desde então, sempre recebo doações de conhecidos”.

Segundo Ivonete, as comidas ultraprocessadas a assustam, principalmente pelo número de conservantes, ela diz que não consegue acreditar a quantidade desse tipo de comida que ela vê na casa de outras pessoas.

“Eu prefiro fritar um ovo, ou fazer um omelete, com salsinha, cebolinha, simples assim.”, diz.

Hábitos alimentares na pandemia

O estudo NutriNet Brasil, coordenado pelo Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo, mostrou que a alimentação do brasileiro mudou durante a pandemia. As primeiras análises do estudo, que envolveram os primeiros dez mil participantes da pesquisa, indicam um aumento generalizado na frequência de consumo de frutas, hortaliças e feijão (de 40,2% para 44,6%) durante a pandemia. Por outro lado, a evolução positiva na alimentação foi acompanhada por um aumento no consumo de alimentos ultraprocessados nas regiões Norte e Nordeste e também entre as pessoas de escolaridade mais baixa.

São resultados que sugerem desigualdades sociais na resposta do comportamento alimentar à pandemia e que podem contribuir para o aumento de algumas comorbidades, segundo a pesquisadora Renata Levy.

“O consumo de alimentos ultraprocessados está ligado a diversas doenças como diabetes, obesidade, hipertensão, que acabam sendo fator de risco para o novo coronavírus”, diz Renata, “e o mais curioso é que temos estudos aqui no Brasil indicando que uma dieta mais saudável acaba sendo mais barata do que uma dieta que tenha alimentos ultraprocessados. Claro, é mais fácil comer esse tipo de comida, mas é pior para a saúde”.

Em relação a um futuro pós-pandemia, Francieli diz que vai manter seus hábitos saudáveis, assim como Ivonete, mas Renata destaca que só saberemos as verdadeiras transformações na dieta do brasileiro daqui alguns meses.

“Nosso estudo continuará seguindo esses participantes durante mais alguns anos para podermos comprovar se seus hábitos alimentares se manterão”, diz, “até lá, é importante manter uma alimentação saudável, porque um boa saúde significa uma boa imunidade, condição muito importante nesse tempos de coronavírus”.

O Estudo NutriNet Brasil é um dos maiores estudos em alimentação e saúde do país. A pesquisa, iniciada em janeiro de 2020, tem como objetivo identificar os principais padrões de alimentação praticados pelos brasileiros e estudar sua associação com o risco de desenvolver doenças crônicas não transmissíveis, que afetam milhões de pessoas no país.

Serão acompanhadas 200 mil pessoas em todo o território brasileiro, por 10 anos. Podem participar pessoas residentes no Brasil, maiores de 18 anos e que tenham acesso à internet. Os resultados do estudo vão contribuir para a elaboração de políticas públicas que promovam a saúde e a qualidade de vida da população brasileira. Para participar do estudo, acesse: https://nutrinetbrasil.fsp.usp.br/#participar