Sumiço de crianças no RJ: Defensoria encontra famílias após protesto e ‘tortura’


Mylena Guedes, Isabelle Resende e Camille Couto da CNN, no Rio De Janeiro
13 de janeiro de 2021 às 10:54
Policiais fazem nova busca pelas crianças desaparecidas em Belford Roxo
Policiais fazem nova busca pelas crianças desaparecidas em Belford Roxo
Foto: Luciano Belford/Agência O Dia/Estadão Conteúdo

Após protestos e até um caso de suspeito torturado, defensores públicos se reúnem nesta quarta-feira (13) com as famílias das três crianças desaparecidas em Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Elas estão sumidas há 17 dias. O objetivo da Defensoria é oferecer apoio jurídico na incansável busca pelos jovens.

Os moradores da comunidade do Castelar fizeram um protesto na terça (12) em frente à Divisão de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF) para pedir esclarecimentos sobre o desaparecimento das crianças. Um ônibus chegou a ser incendiado nas proximidades e a Polícia Militar foi acionada.

 

No início da tarde desta terça-feira (12), os defensores públicos foram até o município de Belford Roxo para encontrar as famílias. Os parentes das crianças estavam na DHBF, onde cobram respostas da Polícia Civil.  A reunião inicialmente estava marcada para acontecer na sede da Defensoria Pública do Rio de Janeiro, mas as famílias decidiram ficar na delegacia após um suspeito ser encaminhado para depoimento.

De acordo com a DHBF, o homem foi torturado por traficantes da comunidade e levado por moradores para a delegacia durante a madrugada dessa terça-feira. Os parentes das crianças e os moradores da região afirmam que o homem tem envolvimento com o desaparecimento dos meninos. Porém, a Polícia Civil informou que o suposto envolvimento “se trata de notícia falsa” e “não tem qualquer relação com o caso”. Após investigações, ele foi preso por ter conteúdo pornográfico envolvendo crianças e adolescentes no celular. A delegacia instaurou um inquérito policial para apurar a tortura que, segundo investigações, foi orquestrada pelos líderes locais, identificados como José Carlos dos Prazeres Silva, conhecido como “Piranha”, e Wiler Castro da Silva, conhecido como “Estala”, ambos foragidos da justiça.

Os agentes da delegacia fizeram buscas em dois endereços de comunidades próximas no fim da tarde de terça (12), mas não acharam nenhuma pista de onde estão as crianças.

Nome dos meninos desaparecidos no Rio de Janeiro não constava no Cadastro Nacion
Polícia investiga desaparecimento de meninos em Belford Roxo
Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução

Os meninos Lucas Matheus, 8 anos, Alexandre da Silva, 10 anos, e Fernando Henrique, 11 anos, estão desaparecidos desde o dia 27 de dezembro do ano passado. O Disque Denúncia recebeu até agora 34 denúncias sobre o suposto paradeiro das crianças.

A Polícia Civil informou que já foram analisadas imagens de mais de 40 câmeras de segurança que poderiam ter registrado os meninos, mas nenhuma flagrou Lucas, Alexandre e Fernando
Além da Polícia, o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) também acompanha o caso, por meio do Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos. No entanto, apesar de já terem passado mais de 15 dias desde o desaparecimento das crianças, os nomes dos meninos ainda não constam no cadastro de crianças e adolescentes do Ministério da Justiça. Mas os nomes das crianças ainda não foram cadastrados porque o sistema está em fase de "implementação", segundo o MJ.

 

Enquanto não são encontrados, Lucas, Alexandre e Fernando integram a estatística de desaparecidos no Rio de Janeiro. Só no ano passado, o SOS Crianças Desaparecidas – programa ligado à Fundação para a Infância e Adolescência – registrou 148 desaparecimentos. Do total, 80,41% dos jovens foram localizados. O restante entra numa dolorosa equação: de 1996, quando o SOS foi criado, até hoje, 577 filhos e filhas vivem apenas na memória dos pais. Ao longo dos 25 anos de existência do programa, 87% dos desaparecidos atingiram a maioridade sem que os familiares conseguissem, ao menos, saber se seguem vivos. Mesmo assim, a busca do SOS não para. “Eles seguem na nossa lista, mesmo depois de completar 18 anos”, explica o gerente do programa, Luiz Henrique Oliveira.

Denúncias que possam ajudar nas investigações devem ser realizadas pelos telefones do Disque Denúncia: 2253-1177; Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense: 2779-6902 / 5834 ou 98596-7442; e o programa SOS Crianças Desaparecidas: 2286-8337 e 98596-5296.